Aniversário de um filho: a seis anos ele me mostrou o caminho

O aniversário de um filho acaba sendo um pouco aniversário da mãe também. Principalmente do filho mais velho, pois ele é quem inaugura a maternidade da mãe. Essa semana meu primogênito, o Dante, está completando seis aninhos, ocasião feliz em que comemoro sua vida e medito com gratidão nas tranformações que ele trouxe para a minha.

Há poucos anos atrás, meu sentimento em relação à minha própria vida poderia perfeitamente ser descrito pelos versos de Fernando Pessoa:

“A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou”

A criança que eu fui era uma menina introspectiva, contemplativa e sensível; de escassas, mas preciosas amizades. Uma criança que amava sua família e, em seu coração, amava a Deus.

Não irei entrar nos pormenores sobre a forma como essa criança foi abandonada na estrada; o fato é que, crescida, minha vida passou a ser ruidosa e tumultuada; passei a ter muitos (e superficiais) amigos; afastei-me da família que me amava – pior ainda, afastei-me de Deus.

Mas Ele não se afastou de mim, e a maternidade foi a forma que Ele usou para resgatar-me. O filho que Ele enviou para mim e meu marido foi como um fogo que limpou um enorme terreno, removendo impurezas – o egoísmo, o comodismo, a superficialidade – e queimando tudo aquilo que não fosse forte e verdadeiro o suficiente para permanecer. E quanta coisa foi queimada! As numerosas amizades! As aspirações vaidosas de uma carreira de sucesso! Os caprichos e comodidades de uma vida sem responsabilidades!

Meu filho ajudou-me, assim, a resgatar-me um pouco na pessoa que eu era, verdadeiramente. Hoje vejo que quem sou se completa de forma harmoniosa com a criança que fui, excluindo-se o lapso da adolescência. Encontrei amigos preciosos que, além de mim, também são amigos de meus filhos. Reconectei-me com minha família, agora vendo um novo sentido nesta união. Reconectei-me com Deus.

E Ele, de presente, ainda me envia mais filhinhos, para aparar as arestas que ficam – pois ainda existem muitas arestas. Se o primeiro filho foi o incêndio que, arrasador, limpou todo o terreno; o segundo e o terceiro são o arado que me leva a continuar persistentemente este trabalho.

Por isso, arrisco dizer que a maternidade, para mim, foi como encontrar o alto monte, ainda da poesia de Fernando Pessoa:

“Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s