Nós e a amamentação – meu caminho de leite

Nesse mês de agosto, mês de incentivo à amamentação, meu primogênito estará completando seis anos. O aniversário do primogênito é também um aniversário de maternidade, ao mesmo tempo em que marca o início de uma caminhada longa nas trilhas da amamentação. E como vieram os outros meninos depois, posso dizer que estou a seis anos amamentando, praticamente ininterruptamente.

Minha história com a amamentação não é muito usual. Talvez você esteja pensando que eu vá descrever como sofri com as terríveis rachaduras, e como foi difícil no começo, mas depois superei. Então, não foi bem assim. Foi justamente o contrário. Acho que eu sou a única pessoa que eu conheço que nunca teve uma rachadura, a amamentação seguiu perfeita desde o início, natural e instintiva, um presente especial de Deus.

Estou falando isso para posar de perfeita? Não gente, de jeito nenhum, Deus me livre. Na verdade, como vou contar um pouco da amamentação de cada filho, vocês vão ver que sempre surgiu uma ou outra coisinha chata para estorvar. Mas o início mesmo, da amamentação, foi surpreendentemente tranquilo, apesar das condições. Vou contar.

Dante

Quando eu estava grávida do Dante, meu primogênito, eu tinha a certeza mais absoluta do mundo de que não conseguiria amamentar. Era uma certeza resignada. Todas as mulheres da minha família não amamentaram. Os cinco filhos da minha vó se criaram no leite de cabra. Eu mesma tenho a clássica foto tirada em meio às latas de leite em pó que consumi, porque minha mãe diz que ela não tinha leite, assim como minha vó. Comigo não seria diferente, certo?

Quando o Dante nasceu, em uma desnecesária, fiquei esperando as orientações da enfermeira para a alimentação dele. Quando a enfermeira entrou no quarto, ela perguntou como estava a amamentação, e eu respondi: “Eu não tenho leite”. Ela disse: “Tem sim!” e apertou o meu seio, fazendo sair o colostro. Quando eu vi que tinha leite ali foi a maior supresa: “Nooossa, eu tenho leite, não acredito!!!”. Foi preciso ver com os próprios olhos rs. Hoje lembrando disso acho tanta graça! O Dante pegou perfeitamente desde o início. Digo que isso foi dádiva de Deus justamente porque eu, tão desacreditada, precisava muito dessa dádiva para acreditar e conseguir amamentar.

O que não foi legal foi que na maternidade nos orientaram a amamentar em horários fixos: apenas de 3 em 3 horas, 15 minutos cada seio. Senão o bebê vai fazer o peito de chupeta. Eu, mãe de primeira viagem, achava que tinha que obedecer piamente essa regra; nossas duas primeiras noites foram um inferno porque ele só chorava. Como eu podia dar o peito se ainda faltava 1h20m para a próxima mamada? Na terceira noite não resisti. Em meio a tanto choro, resolvi ignorar a famigerada regra, e dei de mamar antes do horário: ele mamou 5 minutos e dormiu. Dormiu bem. Eu fiquei tipo… “era só isso? eu aguentando berreiro à toa, sendo que era só dar o peito?”. Então. Foi o primeiro grande insight que eu tive na minha maternidade: existe a teoria, existe a prática. Existem os especialistas, existem as mães. Não deixe que o “especialista” te ensine a ser mãe. Melhor seguir sua intuição materna.

A partir de então, com o Dante, foi só alegria (ok ok gente, ele era um bebê… ufa, um bebê que queria colo e peito o dia todo. Mas hoje tenho saudades da época em que eu deitava pra ver um filme e ele seguia mamando durante o filme inteiro). A amamentação me ajudou a curar as feridas da cesária desnecessária e da separação dele no seu nascimento. Você pode conhecer melhor essa história aqui.

Dante mamou até 2 anos e meio. O desmame foi gentil, gradual, tranquilo. Eu já estava grávida do Tomás.

Quando o Tomás nasceu, foi muito parecido, tudo seguiu perfeitamente bem. Inclusive, ele teve a bênção de mamar logo na primeira hora de vida, a hora de ouro, por isso o estabelecimento da amamentação foi ainda mais tranquilo.

A diferença é de que ele era um neném muito sossegado, pedia para mamar bem menos do que o Dante. Assim, meu ciclo de fertilidade voltou logo aos 3 meses (a amamentação está diretamente envolvida no retorno do ciclo). Mas foi tudo bem. Íamos seguindo até que, quando ele tinha 1 ano e 3 meses, eu engravidei do Estêvão.

Nessa gravidez, a amamentação se tornou literalmente uma tortura, estava tudo muito sensível e o Tomás inventou de morder ainda por cima. Decidi me manter firme com a amamentação, reduzindo apenas alguns horários de mamadas. Contudo, a cada mamada eu ficava muito tensa e sentia muita dor. Talvez ele percebesse isso… o fato é que, com 1 ano e 8 meses, ele não quis mais mamar. Acontece. Não foi exatamente um desmame bonito e elegante, na verdade ele passou a me rejeitar e a buscar ficar mais com o pai. Algumas mães experimentam esse afastamento do filho mais velho durante a gestação.. tudo bem, isso passa. Hoje, que nós já “reatamos”, quando vejo o amor dele pelo irmãozinho, e quando recebo abraços apertados e gostosos dele, vejo que tudo foi uma fase e que valeu a pena.

Eu e o Tomás

Já o Estevão, o caçulinha, nascido em casa e tudo o mais… esse me deu algumas experiências novas com a amamentação. Foi tudo bem de início, mas com uns 10 dias tive a desesperadora experiência do ducto entupido. Gente, é desesperador: a gente bota o bebê pra mamar, a gente esgota na mão, a gente esgota na bombinha, e a parte do peito que está entupida só fica cada vez maior e mais inchada, socorro! A enfermeira obstetra nos orientou, e eu furei um pontinho branco na ponta do mamilo com uma agulha esterilizada, delicadamente. O leite fluiu e foi um alívio.

Contudo, ainda ficaram alguns nódulos. Tive febre alta e tive que ir internada na maternidade para investigar a febre (não teve jeito, não consegui escapar da maternidade rs). A enfermeira nos recomendou massagear para ordenhar suavemente os nódulos. Ficou tudo bem. Seguimos na amamentação.

É, não teve jeito de fugir da maternidade, mas o meu pacotinho foi junto comigo!

Esse mês, ele com 8 meses, passamos pela greve de amamentação, um período de dentes nascendo, no qual ele ficou 3 dias sem querer mamar. Eu continuei ordenhando. Foi difícil, fiquei assustada pensando que ele ia desmamar, mas quando ele estava sonolento, eu insisti, dei uma forçadinha e ele voltou a mamar. Fez as pazes com o peito. E assim seguimos felizes, até quando Deus quiser.

O que a amamentação significa pra mim?

Significa vínculo com os pequenos. Poder deitar, sentar, descansar enquanto os alimento, olho em seus olhos, sinto seu cheiro, seguro suas pequeninas mãos.

Significa um jeito fácil e gostoso de colocar o neném para dormir. Meus bebês sempre dormiram no peito.

Significa um jeito de acalmar o neném quando ele está assustado ou inseguro.

Significa um bebê forte que não vai precisar tomar nenhum antibiótico.

Significa economia, não preciso me preocupar com leite em pó, nem com lavagem de mamadeiras e afins (para mim que sou meio preguiçosa com lavagem de louças, isso é perfeito).

Enfim, significa ser instrumento de Deus para prover o alimento físico e espiritual para os meus filhos. E, justamente com essa visão de céu, me vejo a meditar continuamente nas palavras de Santo Agostinho:

“Receberam-me os consolos do leite humano, do qual nem minha mãe, nem minhas amas enchiam os seios; mas eras Tu que, por meio delas, me davas aquele alimento da infância, de acordo com o seu desígnio, e segundo os tesouros dispostos por ti até no mais íntimo das coisas”

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