A dor do parto II – uma visão espiritual

Terminei meu último texto dizendo que, no parto, Deus espelhou o céu.

O fato é que o parto tem que transcorrer em meio à dor. Isto pode ser tolerado com sofrimento, ou vivenciado com toda a plenitude de seu significado.

Maternidade é doação, e dentro da maternidade há o parto, que também é uma lição de amor: a mãe, por amar seu filho, é capaz de passar por todo esse processo, ao mesmo tempo em que passar por ele fortalece ainda mais esse mesmo amor.

Acerca desse assunto, o venerável Dom Fulton Sheen escreveu com precisão, quando disse que “todo nascimento reclama submissão e disciplina. Na mulher, a submissão não é passiva, é sacrifical. Nem só os dias da mulher, mas também as noites, não só a alma, mas também o corpo hão de partilhar do Calvário da maternidade. É por isso que a mulher tem da doutrina da Redenção uma compreensão mais nítida que os homens, ela, ao dar a luz, pôde associar com a vida o risco da morte e compreender o sacrifício de si mesma por outro ser, nos meses incômodos da gestação .” O que mais dizer sobre isso?

Contudo, temos a tendência a fugir do sofrimento e a buscar caminhos mais fáceis – isso é compreensível, devido à natureza humana que nós todos temos, sem exceção! Só que, geralmente, esses caminhos não costumam nos levar exatamente ao que queremos. E quando falamos em nascimento, fica difícil fugir da dor. A cesariana não anulará a dor – pelo contrário, a dor do pós operatório permanece por muitos dias! Ou seja, optar pela cirurgia como um método indolor não é uma boa idéia. Melhor mesmo é se entregar ao processo do nascimento.

Quando percebemos o conjunto de fatores envolvidos, e vemos que “a cruz que se abraça é mais leve que a cruz que se carrega”, a experiência do trabalho de parto se enche de significado e ganhamos força para enfrentá-la – ou melhor, para nos entregarmos a essa experiência.

Em vista disso, costumo sempre orientar as gestantes no sentido de se entregar à dor, sem medo. Deixar a dor vir, aceitar a dor, permitir que a contração atue no corpo sem tentar fugir.

Sei que parece fácil falar. Existe a teoria e a realidade, vivenciar o parto é outra coisa. Mas para exemplificar como tudo isso faz sentido, dou o testemunho do meu último parto. Por que o último? Porque o parto do Estêvão foi muito doloroso, muito mais do que o do Tomás (coisa que eu não esperava e para a qual não me preparei).

Vou contar toda a verdade sem esconder nada: a princípio me desesperei, gritava e me contorcia, pedia por socorro. As contrações eram tão intensas e mal davam trégua, quase não existia intervalo – e já estávamos com dilatação completa. Em determinado momento me deu um “insight”, e eu simplesmente percebi que se continuasse me contorcendo e gritando desesperadamente, tentando fugir, aquilo continuaria infinitamente.

Era preciso que o Estêvão nascesse. Me levantei, mudei de posição, e com concentração aceitei a dor. Feito isso, ele nasceu facilmente.

A dor do trabalho de parto é nossa amiga. Tudo ocorre melhor quando lhe damos a mão. São Josemaria Escrivá nos dá esse precioso ensinamento: “A dor esmaga-te porque a recebes com covardia. – Recebe-a como um valente, com espírito cristão; e a estimarás como um tesouro.”

Esse é o espírito com o qual se preparar para o parto. Afinal, como diria o poeta, “ a dor é inevitável, o sofrimento é opcional”. 

Lembrando que um bom parto não é o um parto sem dor. Um bom parto é aquele em que a mulher, ao fim de tudo, reflete sobre a experiência que passou e sente que tudo foi feito da melhor forma possível para que ela e o bebê fossem respeitados em sua fisiologia, e pudessem vivenciar em plenitude o que está na sua natureza.

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