A dor do parto I



“Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.” (Fernando Pessoa)

O que o mar e o cabo do Bojador têm a ver com o parto? Basta dizer que o Cabo do Bojador (uma região marítima africana que os portugueses penaram muito para atravessar) também era conhecido como Cabo do Medo.

Já ouviu falar de alguma mulher que sente medo da dor do parto? Pois é. Sobre a dor e o medo da dor, proponho algumas reflexões.

  • O fato de o parto ser doloroso não é coisa nova. Já está em Gênesis, 3: “com dor darás à luz teus filhos”. Nossas avós e bisavós já nos contavam que sentiam dor para dar à luz.
  • Contudo, a dor do parto nunca foi, na história da humanidade, um empecilho para dar à luz. As mulheres continuaram parindo e os bebês continuaram nascendo, porque era assim que os bebês vinham ao mundo, e a vida seguia.
  • Hoje, o que difere são as “escapatórias” para a dor do parto, como a epidural e a cesárea. Contudo, tanto uma quanto a outra interferem (uma menos, outra muito mais) na fisiologia natural do nascimento, e não são escapatórias absolutas, pois a dor ainda permanecerá de alguma forma.

A ideia da “dor do parto” paira como um fantasma, como algo além das forças – um obstáculo que muitas mulheres julgam não serem capazes de enfrentar. Junta-se a isso uma indisposição geral hoje em dia com o parto natural. São comuns os conselhos: “Você não precisa passar por isso”, “você não vai aguentar não”… Infelizmente existem pessoas que dizem esse tipo de coisas para gestantes. E o fantasma da “dor do parto” só aumenta.

O que torna essa questão um “fantasma”, falseado e inflado, é que o parto é único para cada mulher. Cada mãe passará pela travessia do parto de forma diferente: para umas, mais rápido; para outras, devagar. Algumas lidam bem e têm uma melhor tolerância para com a dor. Outras trabalharão mais. Mas uma coisa eu garanto: toda mulher é capaz de fazer a travessia.

A dor do parto é a contração do útero, que vem intermitente, como as ondas do mar. Não é uma dor como a de um ferimento ou uma doença, não! Não há nada de errado acontecendo. A dor do parto nada mais é que a força do seu corpo – com maravilhosos intervalos para recuperar o fôlego! – que trabalha perfeitamente bem para dar à luz seu filho. A cada onda, mais próximo de nascer seu filho estará.

E vale a pena? Nosso poeta responderá que tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Se abandonarmos o medo e nos entregarmos a vivenciar o trabalho de parto intensamente, de corpo e alma, compreenderemos o valor de tudo quanto passamos quando o filho estiver em nossos braços. Essa experiência, de vivenciar o parto – natureza perfeita – é como o mar, segundo o poeta. Pode parecer intransponível, cheia de “perigos e abismos”, mas é nessa vivência que Deus espelhou o céu.



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