Nasce um filho, nasce uma mãe – uma forma dolorosa de aprender

Não vou iniciar meu blog escondendo nada. Muito menos romantizando minha história. Quando engravidei do meu primeiro filho, o Dante, eu queria fazer uma cesárea. Isso mesmo: eu queria fazer uma cesárea.

Eu era outra pessoa (dá para perceber pela foto, não? rs). Eu sonhava com meu bebê e em ser mãe… mas não me importava com o jeito que ele iria nascer. Eu desejava a cesárea por acreditar naquela visão estereotipada de que o parto normal traz consigo grandes riscos, como o tão alardeado cordão enrolado no pescoço, e de que a cesárea supostamente confere maior controle do parto e segurança à vida de mãe e filho. Mais do que isso, creio eu desejava a cesárea por eu mesma ter nascido de uma cesariana. Desde o início da gestação procurei, então, uma obstetra que me apoiasse nessa decisão – coisa que não foi difícil de encontrar, aliás.

A vida dá voltas, contudo, e muitas vezes um barco à deriva é trazido de volta ao cais. Durante minha gravidez, ouvi belos relatos e incentivos ao parto normal, especialmente aqueles vindos de minha sogra Martha e minha tia Márcia. Sim, elas tinham o que dizer, e eu o que aprender com elas: ambas tiveram três filhos nascidos de parto normal.

A voz da experiência está, muitas vezes, ligada à voz da razão. Minha sogra e tia, mesmo sem formação na área médica/saúde, desmistificaram os preconceitos que eu tinha contra o parto normal.

Decidi, no terceiro trimestre de gestação, “tentar” o parto normal.

Obviamente, eu não compreendia ainda toda a importância do parto, e não me preparei para ele. Sequer estudei. Fui muito ingênua acreditando que, ao “tentar” o parto normal, iria consegui-lo facilmente, em um país em que 55% dos nascimentos ocorrem por cesariana – chegando a ultrapassar 80% na rede particular.

Resultado: com 40 semanas e 02 dias, Dante veio ao mundo em uma (desne)cesárea, pesando 2.700 g.

Durante a cirurgia, medo e ansiedade. Quando ele foi retirado de mim, pude apenas tocar brevemente o seu pezinho, pois ele foi imediatamente levado para um berço aquecido, e eu fui abandonada em um leito no corredor do hospital, onde fiquei em “observação”. Ele, aquecido mecanicamente; eu, fria e anestesiada sobre uma maca.

O Sergio, meu esposo, foi retirado dali. Ficamos os três sozinhos, eu no corredor, o Dante no berçário, e o Sérgio lá fora. Sozinhos e separados. De onde eu estava, via a sala do berço aquecido: Dante chorou durante uma hora em que fiquei ali. Sim: eu fiquei 60 minutos vendo e ouvindo meu filho chorar, longe de mim.

Na verdade, chorávamos os dois: ele abandonado; eu, incapaz de ir até ele e cuidá-lo. De tudo que se passou, essa separação foi o que mais me marcou e doeu. Ainda dói.

Mas, no meio de toda a minha incapacidade, ali, eu percebi que a forma como o bebê vem ao mundo importa. Eu aprendi.

Doloroso e precioso aprendizado. A forma como o Dante nasceu impactou todo o rumo de minha vida: afetou meus futuros partos e a profissão que eu escolhi mais adiante. Eu ainda não sabia que viria a ser doula, mas, se optei por esse caminho, foi para proporcionar que outras mulheres e bebês não tivessem que passar pelo que nós passamos.

Foi assim que, de um jeito torto, encontrei os caminhos do nascimento com amor e dignidade, hoje chamado por muitos de parto humanizado, e que não é nada mais do que o jeito natural, planejado por Deus, para que as mães dêem à luz seus filhos.

 Enquanto eu curava em nós as feridas do nascimento do Dante por meio da amamentação e do colo, ia estudando – relatos, evidências científicas –, estudando e sonhando em fazer tudo diferente da próxima vez…

2 comentários em “Nasce um filho, nasce uma mãe – uma forma dolorosa de aprender

  1. Oi, Bruna!! Nunca imaginei que você quisesse a cesariana no primeiro parto! Apesar dos pesares, Deus é bom! Que bom que seu barquinho voltou ao porto seguro e que te deu uma nova profissão e uma nova perspectiva do parto e da maternidade. Uma doula que tem consciência da maternidade e que a olha com olhar sobrenatural é uma dádiva para uma gestante! Que Deus abençoe seu trabalho e que você possa ser luz para todas aquelas a quem você atende!!! Um beijo!!!

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